BREVE HISTÓRIA DE SATURNO – Por Silvia Ceres


BREVE HISTÓRIA DE SATURNO                                                                        

Por Silvia Ceres

Desde a Antiguidade, o significado de Saturno esteve atrelado à vida social.  Na antiga Roma comemorava-se todos os anos as “Saturnálias” entre os dias 17 e 23 de dezembro, início de Capricórnio, o signo zodiacal de sua regência.

Muitos autores as descreviam como uma orgia carnavalesca, período em que se relaxavam os costumes, permitindo-se durante essa semana, situações que em outras épocas do ano seriam impensáveis: homens vestidos de mulher, excesso de embriaguez, etc. Um bom desafio para a história do pensamento é responder como esse Deus dionisíaco se transformou no ancião sisudo que ainda hoje descrevem os textos astrológicos.

Havia ainda algo mais importante do ponto de vista da sociedade que acontecia nesses dias de devassidão. O amo devia servir a seus escravos, enquanto esses faziam o seu papel.  De maneira que o excesso de crueldade que o amo fizesse durante o ano poderia ser “vingado” durante essa semana. Porém por sua vez, não convinha aos escravos exercer um poder desenfreado, dado que terminadas as Saturnálias, voltavam ao seu lugar de submissão.

Valeria a pena perguntarmos o quanto mudaria a dinâmica social da atualidade, se por uma semana nossos governantes vivessem a situação de seus governados e vice-versa. Temos que reconhecer que as Saturnálias representavam uma maneira engenhosa de regular as relações humanas. Sem dúvida mais eficazes que a imposição de uma série de leis a serem cumpridas, pois como diz o ditado popular “hecha la ley, hecha la trampa” (feita a lei, feita a armadilha).

Para os babilônios e sumérios, era o planeta do direito e da justiça e foi com esse significado que  chegou a Roma antiga. Já em Roma, diz a lenda que foi quem reuniu os homens selvagens e dispersos e os convenceu das benesses de uma vida gregária. Aqui, mais uma vez, se pode assinalar sua relação com o social, uma vez que representa o último planeta do sistema originalmente conhecido, aquele que reúne e contém os demais, formando um conjunto harmônico chamado sistema solar. O paradoxo do limite – significado tradicional de Saturno – é sua dualidade de delimitar o que está fora para conter o que está dentro, o que é côncavo de um lado e convexo de outro.

Neste período passou a ter significados solares de vitalidade e fecundação, responsável pela continuidade das estações, da regularidade dos ciclos, de tal maneira que pouco a pouco, adquiriu o perfil do Deus que ensinou aos homens a agricultura. Sob seu reinado de paz, a humanidade desfrutou da abundância dos alimentos, os campesinos realizaram seu trabalho sem conflitos, sem necessidade de roubar o do vizinho, compartilhando tarefas e benefícios.

A descrição da “Idade do Ouro” marcada pelos ciclos naturais de plantio e colheita das plantações atravessou a tradição helênica. Num processo sincrético, Saturno e Cronos começaram a fundir-se e o deus dos ciclos da natureza começou a se transformar no deus do tempo. Tempo que engole e devora, como Cronos quando castrou Urano e devorou seus filhos, ou seja, sua criação.

A foice, símbolo do universo agrário se converteu na gadanha que traz a morte e Saturno passou daquele que ceifa os cereais para aquele que ceifa as vidas humanas.

O mito grego não só modificou a simbologia do planeta, tornando-o cada vez mais frio, cruel, mesquinho e distante, mas ainda acrescentou uma outra associação, comparando o seu ciclo com o da Lua, uma vez que Saturno  leva 28 anos e meio para percorrer os 12 signos do zodíaco,  permanecendo cerca de 2 anos e meio em cada signo, enquanto a Lua leva um tempo semelhante, se substituirmos anos por dias. A revolução lunar dura 28 dias e fração, permanecendo cerca de 2 dias e meio em cada signo.

Enquanto a Lua parece representar a vida em sua perpétua mudança, Saturno, ao contrário, cristaliza, imobiliza e nos relembra a quietude da morte. A Lua, simbolizando a nutrição, se compromete com o crescimento dos seres vivos, já Saturno com os processos de desapego e senilidade.

Mais dados foram se somando até que se tornasse o “Grande Maléfico” como era chamado na Antiguidade e isso tem a ver com o posicionamento dos signos que rege no Zodíaco: Capricórnio e Aquário. O primeiro se opõe a Câncer e o segundo a Leão, regidos respectivamente pela Lua e pelo Sol. Assim Saturno se opõe à vida, Sol, e ao crescimento, Lua, reforçando seu simbolismo de velhice, esvaziamento e contração. Convém ainda relembrar que a teoria astrológica foi pensada para o hemisfério norte, onde os meses correspondentes a Capricórnio e Aquário coincidem com o inverno, período no qual a natureza se retrai frente a um clima frio e hostil. 

 

 

Sobre a Autora – SILVIA CERES (Argentina):

Convidada pelo SINARJ como palestrante internacional do XIX Simpósio Nacional e X Internacional de Astrologia, ministrará a palestra “Os Aspectos Semiquadratura e Sesquiquadratura” no dia 11 de novembro.

Residente em Buenos Aires, dedica-se à docência, à produção teórica e à consultoria astrológica desde 1980. Coordena as atividades editoriais de Gente de Astrologia-GeA.

 

Nota: A tradução deste artigo, do espanhol para português, foi realizada pela colaboradora Gleide Furtado.